domingo, 31 de janeiro de 2021

Maratona Ghibli: "O Túmulo dos Pirilampos" (1988)

Hoje regressamos aos artigos dedicados à nossa maratona dos filmes do Studio Ghibli e com uma das obras-primas mais chocantes, tristes e pesadas da animação: O Túmulo dos Pirilampos ou Hotaru no Haka (1988), realizado por Isao Takahata, outra das mentes brilhantes por detrás do estúdio japonês, que, infelizmente, faleceu em Abril de 2018, deixando para trás uma maravilhoso legado, com destaque para este sobre o qual hoje escrevo. O Túmulo dos Pirilampos está no topo da lista das longas-metragens mais sérias do Studio Ghibli, pois leva os seus espectadores para um verdadeiro cenário de pós-guerra e tragédias.


A trama inicia-se no dia 21 de Setembro de 1945, imediatamente após o fim da Segunda Guerra Mundial. Somos apresentados a Seita, um adolescente, que morre à fome. De seguida, vemos um homem a mexer nos seus pertences e a encontrar uma lata de guloseimas de fruta, que atira para o campo. A “magia” acontece e aparece a irmã mais nova de Seita, Setsuko, para o acompanhar. São assim os minutos iniciais deste filme, deixando desde logo claro o tom dramático da sua história. No tempo que se segue, porém, ficamos a conhecer tudo o que aconteceu antes deste triste sucedido e embarcamos numa aventura para conhecer melhor Seito e Setsuko, assim como as suas aventuras em tempos de guerra, desde uma busca por abrigo até à dor que é lidar com a pobreza e as doenças, enquanto se recorda um passado feliz (através de vários flashbacks).

Por várias vezes associa-se, erradamente, a animação apenas a um público infantil. O Túmulo dos Pirilampos está aqui para comprovar o contrário, com uma história onde vivemos o drama do pós-guerra, pelos olhos de duas personagens menores de idade, que se veem rapidamente solitários num mundo que não compreendem e que também não os compreende. O maior sofrimento de ambos é duramente mostrado a quem vê o filme, com imagens verdadeiramente perturbadoras dos danos provocados pela morte. É um filme muito sério, mas que pelo meio consegue também encontrar alguma alegria, à medida que explora a amizade destes dois irmãos, levando-nos a entrar no seu pequeno mundo, numa pequena gruta repleta de pirilampos. E é nesses momentos que reside a sua verdadeira beleza, nas interações interpessoais, neste caso, com destaque para os irmãos.


Seita aparece-nos aqui como um rapaz obrigado a crescer demasiado rápido, depois da morte da sua mãe, com a obrigação de cuidar de Setsuko, que é uma pequena menina que deveria ter tido uma infância muito diferente. E o filme não entra em floridos: apresenta-nos Seita a roubar, pois de outro modo ambos morreriam à fome, assim como também a tentar proteger o máximo possível Setsuko da verdadeira realidade, tentando que esta ainda sinta um pouco da sua infância. Os esforços acabam por tornar-se praticamente desnecessários, já que o mundo é muito maior que estes dois e a guerra tem uma maior força. Mas é com o final que percebemos que tudo poderia ter sido diferente para Seita e Setsuko se tivessem tido apoio. Sente-se também uma certa despreocupação pelos desconhecidos e aqui gostaria de destacar o momento do fim de Seita, em que a tragédia poderia ter sido facilmente evitada se tivesse havido uma mão amiga para o ajudar. No entanto, esta torna-se também numa consequência das guerras: a desconfiança e a incompreensão.

Também na sua visualidade este filme faz a diferença, mas é inevitável considerar que tem alguns momentos contrastantes, já que tanto nos apresenta uma animação muito detalhada e bela, como por vezes também se torna um tanto grotesca. A explicação, porém, é simples: é bela quando as coisas estão relativamente bem e é bruta quando lidamos com a morte (como é o caso da última imagem que temos da mãe, talvez um dos momentos mais chocantes visualmente). Ainda assim, tem também muitas paisagens belas, que nos levam a viajar um pouco, ainda que para um cenário onde muitas vezes reina a “reconstrução”.


O resultado de O Túmulo dos Pirilampos de Isao Takahata é um filme poderoso, que mostra o verdadeiro custo da guerra: as perdas que esta traz. É, sem dúvida alguma, um dos melhores filmes já feitos (e não apenas no género da animação) e talvez por esse mesmo motivo encontra-se entre os cinquenta filmes melhor classificados no site IMDb. A verdade é que é uma experiência única e inesquecível, que nos provoca, e, honestamente, não sou capaz de a descrever melhor por palavras, porque este é um daqueles filmes que todos devemos ver e com o qual todos nos devíamos emocionar.
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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