terça-feira, 12 de janeiro de 2021

"Miss" em análise

Quase que se contam pelos dedos das mãos a quantidade de vezes que em 2020 meti os pés numa sala de cinema. Não por não me sentir segura, mas porque as estreias não me agradavam ao ponto de pagar o preço dos bilhetes para as ir ver – eu sei, é um pouco triste dizer isto. No entanto, com a chegada de 2021 e o aumento dessa vontade de voltar a ver um filme no grande ecrã, foi precisamente uma estreia que até me tinha passado ao lado (lançado no final de Novembro) que levou ao meu regresso: Miss, realizado por Ruben Alves – o luso-francês que realizou o popular A Gaiola Dourada em 2013 –, conta-nos uma história no mínimo peculiar, acompanhando um jovem que tem o sonho de ser coroado a mulher mais bela de França. O único problema, claro, reside no facto de ser um rapaz. 


Ruben Alves já nos habituou ao seu sentido de humor e voltamos a ter aqui um tom cómico, à medida que somos apresentados a um grupo de personagens que é o mais pitoresco possível, sendo que todos eles acabam, a determinado momento, por ser vítimas do preconceito de uma sociedade que nem sempre aceita a diferença. Existem duas personagens neste grupo que se destacam: Alex, o nosso protagonista que quer ser Miss, e Lola, uma drag queen que se prostitui para ganhar dinheiro para viver. A amizade entre ambas é fundamental no decorrer da narrativa, até porque Lola é o grande incentivo de Alex, mas é também uma representação do ponto ao qual este não quer chegar (a prostituição, que é visto como o fundo do poço). 

Este é um filme que põe os sonhos em confronto com a realidade, já que nem sempre os sonhos do nosso protagonista parecem ser possíveis de concretizar na realidade que vivemos. Por este motivo, é engraçado ver os seus esforços para, de um certo modo, mudar a sua realidade e garantir a concretização dos seus objetivos. E isto passa, inicialmente, por convencer a sua família, que à partida não acreditava na possibilidade de este se tornar Miss, e, mais tarde, pelo concurso em si, com Alex numa corrida contra o tempo e os preconceitos. O inimaginável torna-se, então, real, mas o percurso é longo e difícil de percorrer – e a verdadeira essência deste filme está precisamente na sua ambição e na vontade do protagonista de se tornar quem quer ser. 


Aqui somos levados para o mundo dos concursos de beleza, quase radicais e muitas vezes considerados fúteis. Temos um contraste interessante entre todo o glamour que é apresentado nos concursos e a crueldade das exigências vividas nos seus bastidores. O nosso protagonista leva o seu tempo a habituar-se a este novo cenário distinto daquele com que sempre sonhara. É interessante pensar no modo como o filme acaba também por expor a leviandade destes concursos, aproveitando temas atuais para criar momentos cómicos para o público, mas de constrangimento para as suas personagens – por exemplo, a sequência na praia. 

Alexandre Wetter é o ator e modelo que interpreta Alex (Alexandra, a determinado ponto), num desempenho extraordinário que, no entanto, não foge muito à sua realidade, já que a facilidade com que alterna entre o feminino e o masculino na vida real foi uma das inspirações para que Ruben Alves decidisse avançar com este projeto que já planeara há algum tempo. A verdade é que Wetter brilha realmente neste papel e consegue destacar-se facilmente entre todas as modelos presentes no concurso. Acompanharmos as suas mudanças (ou, por melhor dizer, as da sua personagem) ao longo do filme leva-nos a apreciar ainda mais a sua beleza e naturalidade. 


Sinto que neste início de ano este foi um dos melhores filmes a estar nas salas de cinema e, curiosamente, a sessão a que fui até estava relativamente bem composta, o que mostra que as pessoas têm interesse em ver filmes deste género (e não apenas blockbusters). Miss é, de facto, uma agradável surpresa, que consegue ter um equilíbrio entre comédia e drama, à medida que acompanha o seu protagonista na concretização de um sonho, mas também numa autodescoberta. É um filme que recomendaria, mas avizinha-se novamente o encerramento das salas de cinema e, portanto, será difícil vê-lo no grande ecrã durante os próximos dias.

8/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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