terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

"As Aventuras de Flora & Ulisses" em análise

Uma das novidades deste mês no catálogo do Disney+ é o live-action As Aventuras de Flora & Ulisses (estreado no passado dia 19), realizado por Lena Khan e baseado na obra literária de Kate DiCamillo. Admito que, inicialmente, o que mais me chamou a atenção foi a pose do protagonista na página principal da plataforma. De resto, nada sabia sobre este filme, pelo que decidi vê-lo apenas com o objetivo de passar um bom tempo, até porque pela sinopse recordou-me alguns filmes que via na infância, nomeadamente aqueles com animais falantes (o que não é propriamente o caso).


A trama introduz-nos uma rapariga, Flora (interpretada por Matilda Lawler), fascinada pelo mundo da banda desenhada, com uma imaginação fértil que faz com que esteja sempre atenta ao despertar de novos poderes naqueles que a rodeiam. Certo dia, vê um esquilo a ser “engolido” por um aspirador e, assim que este recupera os sentidos, percebe que ele ganhou poderes e decide chamar-lhe Ulisses (que é também o nome da marca do aspirador). Assim começa uma inesperada amizade e, pelas palavras da jovem Flora, o nascer de um novo super-herói.

Inicia-se tudo com uma sequência curiosa, onde viajamos um pouco pelo próprio mundo dos super-heróis, com imagens de comics clássicas a preencher o ecrã (temos, por exemplo, o Quarteto Fantástico, Wolverine, etc), até nos ser apresentado Incandesto, uma criação do pai de Flora, que percebemos logo ter sido quem apresentou a protagonista às bandas desenhadas. Neste ponto, é interessante pensar que o próprio Incandesto para Flora é tão poderoso (ou até mais) como os outros todos que nós tão bem conhecemos da cultura popular.


Parece-me que este pode perfeitamente ser definido como um filme de super-heróis, mas mais direcionado para as crianças. É também um que explora o próprio conceito de “super-herói”, desde a origem (todos os super-heróis têm um momento de revelação, em que ganham os seus poderes), à definição de um propósito (por que lutam eles? O que querem defender?), ao momento da ação (em que põem em prática os seus poderes, na defesa do seu objetivo). Assim sendo, à medida que Ulisses vai revelando os seus poderes, continuamos a ter uma viagem pelas bandas desenhadas, com vários exemplos reais, intercalados com as personagens criadas pelo pai de Flora. Para além das referências às bandas desenhadas, é de notar também uma grande influência de outras obras da Sétima Arte, como é o caso de Titanic (1997) ou da saga Star Wars, cujo tema principal da banda sonora é o som da campainha da casa da família. É de notar que estes pequenos easter eggs surgem muitas vezes com um tom cómico, que ajuda a trazer esta história para a nossa própria realidade, já que mistura o mundo que nós conhecemos com a ficção, o que contribui para a veracidade da mensagem final do filme, que nos diz que podem existir super-heróis, que basta observarmos o que nos rodeia.

Geralmente, algo que me preocupa quando existem animais interativos nos filmes é a sua imagem. Existem casos em que o CGI não é bom e não dá movimentos naturais aos animais. Neste caso, temos dois exemplos opostos: Ulisses é um esquilo com movimentos impecáveis e expressões muito bem conseguidas; por sua vez, outros animais, como é o caso do gato que aparece várias vezes, pecam por terem uma imagem menos legítima, notando-se uma certa falta de atenção às personagens secundárias.


Por fim, no que toca ao elenco gostaria de destacar a performance de Matilda Lawler, uma jovem atriz que conta ainda com poucos créditos de representação, mas que, certamente, durante os próximos tempos vai voltar a revelar-se. É importante que o elenco infantil seja verosímil e entregue confiança no seu trabalho e é o caso de Matilda, que consegue entregar uma personagem interessante e bem interpretada. Por sua vez, os atores que interpretam os seus pais (Alyson Hannigan e Ben Schwartz) também transmitem boa disposição e uma interação interessante entre eles.

As Aventuras de Flora & Ulisses acabou por se revelar uma agradável surpresa. Não é um daqueles filmes simples em que apenas há uma amizade entre uma criança e um animal. Eu diria que até é uma boa homenagem ao universo das bandas desenhadas e dos super-heróis. É uma excelente aposta para ver numa tarde passada em família e o resultado certamente agradará a todas as idades.

6/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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