domingo, 7 de fevereiro de 2021

"Malcolm & Marie" em análise

Há um filme da Netflix que tem vindo a destacar-se entre as várias recentes estreias: Malcolm & Marie, realizado por Sam Levinson, um dos criadores da série Euphoria, da plataforma de streaming concorrente (a HBO). Pelo que se conta, o argumento deste filme foi escrito em apenas seis dias e filmado em duas semanas, precisamente durante a pausa das gravações de Euphoria devido à pandemia. E se nessa série Levinson tem um gosto especial por acompanhar a vida dos adolescentes e tudo um pouco daquilo que isso envolve (desde as rotinas aos vícios), em Malcolm & Marie há temas semelhantes também a serem referidos, enquanto acompanhamos a relação de um realizador (interpretado por John David Washington) e da sua namorada (Zendaya), depois de este ter estreado o seu primeiro filme, num momento em que aguardam para ler as primeiras críticas. Temos, então, uma premissa simples, também muito ao estilo de Levinson, mas que não tarda a mostrar uma certa ambição.


Para começar, gostava de destacar uma belíssima citação dita neste filme: “O cinema não tem de ter uma mensagem. Tem de ter coração e eletricidade”. Talvez por isso, esta é uma longa-metragem que vive pelas suas emoções, sempre à flor da pele. Neste sentido, gostava de referir dois aspetos importantes que contribuem para que as emoções das personagens atinjam mais facilmente os espectadores: as prestações dos dois atores e as escolhas estéticas.

Zendaya e John David Washington, não querendo parecer redutora, conseguem carregar este filme às costas. Começam por criar aquilo que poderia ser considerado um casal normal, assumindo até vários estereótipos da sociedades – por exemplo, vemos os dois a chegar a casa e Marie a ir imediatamente cozinhar macarrão com queijo para Malcolm, enquanto este se limita a dançar, não a ajudando minimamente –, mas é quando, mais tarde, a discussão começa que estes dois incríveis atores mostram o seu verdadeiro valor, especialmente quando fazem longos discursos sem grandes pausas – gostaria, aqui, de notar o discurso de Malcolm depois de ler a sua primeira crítica, em que John David Washington passa para um quase monólogo infinito e enervado que apenas a sua personagem consegue realmente entender, mas que o ator consegue perfeitamente transmitir o seu sentimento para o público.


Relativamente à sua estética, Sam Levinson opta por algo que nos dias de hoje é um tanto arriscado e escolhe filmar em 35mm a preto e branco. De lembrar é que atualmente o preto e branco não consegue chegar a tanta gente, devido a muitos preconceitos (relativamente a este filme, já li algumas impressões pela Internet que gostava aqui de referir: “informem-me quando fizerem o remake a cores”, “filmes a preto e branco na Netflix? Vou já cancelar a subscrição”). Pessoalmente, acho que o facto ser filmado a preto e branco contribui drasticamente para aumentar a sua emoção e demonstrar ainda melhor os sentimentos que os atores nos querem transmitir. O resultado acaba por ser algo mais melancólico, dramático e transparente do que seria se fosse a cores, até porque assim focamo-nos melhor nos atores e nas suas micro-expressões.

Agora, regressando ao início, gostaria de me focar um pouco melhor no argumento, mas neste sentindo sinto-me um pouco intimidada pelas palavras do próprio Malcolm, ao referir que quem escreve as críticas procura sempre uma mensagem intelectual, que nem sempre existe. A meu ver, a mensagem que Malcolm & Marie nos traz é muito simples e reside apenas num espelho de um momento de tensão, idêntico ao que tantos casais vivem, incluindo tudo o que isso implica: palavras horrorosas, tentativas de abalar o outro, de o rebaixar, de nos defendermos… É feio de se ver – não num sentido cinematográfico, mas por assumir que muitos de nós já passámos por isso. A mensagem, diria eu, é que há sempre luz ao fundo do túnel. Isto porque depois e mesmo ao longo desta discussão é inevitável pensarmos que este casal se ama, apesar de todas as coisas que estão a dizer sem seriedade. Acaba por haver uma frequente tentativa de reconciliação, mas desde cedo somos informados de que naquela noite isso será quase impossível.


Malcolm & Marie é um bom filme para nos levar a refletir, e não apenas em termos de relações. Acontece que no segundo ato temos outros problemas importantes a ser referidos e no final ficamos com uma mixórdia de temas em mente para repensar. Nota-se que este argumento, apesar de tantas vezes referir que nem tudo tem de ter uma mensagem, acaba por ter pelo menos o objetivo de nos levar a refletir e, de pelo menos, tentar compreender que as nossas atitudes nem sempre são as mais corretas, já que Malcolm e Marie nada mais são do que uma imagem de qualquer um de nós – pelo menos num modo geral.

7/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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