quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Maratona Ghibli: "Memórias de Ontem" (1991)

Regressando à nossa maratona Ghibli, o filme de hoje é Memórias de Ontem ou Omohide poro poro (1991), de Isao Takahata, baseado no manga homónimo de três issues escrito por Okamoto Hotaru e ilustrado por Tone Yuko. Aqui acompanhamos Taeko, uma mulher de vinte e sete anos que decide fazer uma viagem e sair de Tóquio, de modo a revisitar o seu passado. Assim, recuamos na sua vida e ficamos a conhecer a sua infância, as suas primeiras experiências e os seus momentos mais marcantes.


Esta é uma longa-metragem especial, que poderia muito bem cair nos clichés das típicas histórias coming of age, em que seguimos determinada personagem durante a sua infância e depois na adolescência, até atingir uma idade adulta. A diferença está no facto de a nossa protagonista já ser uma adulta, mas sente a necessidade de recuar ao seu eu-interior do passado, de modo a conseguir seguir em frente na sua vida. É, então, através desta necessidade que recua no tempo, através de memórias, e regressa a espaços que fizeram parte da sua infância e onde foi feliz (e também infeliz).

É interessante pensar na necessidade que esta personagem tem em recordar a sua infância. Vive um momento “estranho” na sua vida, mas sabe que há um lugar seguro onde pode sempre voltar. Através da sua viagem para um meio mais rural, onde cresceu, consegue recuperar todas as experiências que teve. Gostava de destacar a recordação do ananás. Pareceu-me particularmente curioso a personagem recordar-se da primeira vez que comeu ananás; algo que poderia ser apenas banal teve nela um grande impacto, talvez não apenas pela experiência em si, mas porque a fez acompanhada de toda a sua família, num momento em que todos se reúnem à mesa, para a tão antecipada prova do fruto – que acaba por desanimar todos os outros, sendo a nossa protagonista a única a comer todo o seu pedaço.


Memórias de Ontem marca um novo ritmo no Studio Ghibli ao apresentar uma história muito diferente, mais real e com a qual, certamente, nem toda a gente se relaciona. Acredito que o modo como vemos e absorvemos esta história será sempre distinto dependendo da fase em que estamos na nossa própria vida, podendo ou não identificarmo-nos com Taeko. Assim sendo, este filme quebra por completo a ideia geral associada ao Studio (o que é costume nos filmes de Takahata), já que, por norma, este é associado a filmes mais ligados ao imaginário – essencialmente os de Hayao Miyazaki, que são os mais populares –, e talvez esse seja um dos motivos pelos quais este é um dos menos conhecidos: não pela sua falta de qualidade (porque é um filme muito bom), mas por escapar um pouco ao que é mais frequentemente apresentado pelo estúdio japonês.
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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