terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Maratona Ghibli: "Porco Rosso - O Porquinho Voador" (1992)

Hoje na nossa maratona Ghibli viajamos para Itália, onde acompanhamos as aventuras de um ex-piloto da Força Aérea, que a bordo do seu hidroavião enfrenta piratas do ar e resgata passageiros tomados como reféns. Porco Rosso - O Porquinho Voador ou Kurenai no buta (1992) é mais um dos filmes de destaque escrito e realizado por Hayao Miyazaki. E se, aparentemente, parece ser apenas divertido, basta alguns minutos dentro da sua história para se perceber que é também uma crítica à guerra, à medida que nos apresenta uma oposição entre herói e falso herói e explora os confrontos existentes no próprio protagonista.


A premissa é simples. Conhecemos um homem, Marco Pagot (posteriormente conhecido como Porco Rosso), que foi transformado em porco e que pilota o seu avião durante o nascimento dos Nazis. Vive-se um momento de guerra e o nosso herói ocupa-se a derrotar os piratas do ar italianos que assaltam e mantêm turistas como reféns. Com isto, torna-se também numa figura procurada e Gina, uma cantora e proprietária do resort de uma ilha, que ama o Porco Rosso desde a infância (quando este ainda era um homem), não se arrisca a perder mais ninguém na sua vida, tentando, então, controlar o destino deste.

Lembro-me de ver este filme durante a minha infância e, na altura, algo que me deixou perplexa foi o facto de a transformação de Porco Rosso não ser muito referida. No final do filme, fiquei com a questão: por que motivo este foi transformado num porco? Temos momentos em que é ainda apresentado enquanto homem, mas a origem da sua mudança não é abordada suficientemente, ao ponto de terminar com uma ideia clara. No entanto, parece-me agora que esta transformação parte do próprio protagonista e foi algo que fez a si mesmo, depois de ver os seus companheiros de guerra serem mortos. É a maneira como se sente, sem felicidade, sem amor, apenas culpado… torna-se num porco, sem valor, considerando-se até nojento. Talvez não porque os outros o vejam dessa maneira, mas por ser assim que se sente, depois de tudo o que viveu na Guerra: está isolado do resto da humanidade, porque não confia nos outros depois da sua experiência de vida. A determinado momento, porém, sentimos que este volta a ser humano, ainda que o seu rosto não seja totalmente revelado. É a partir de uma frase que este diz à jovem Fio que esta ideia é enriquecida, já que diz à rapariga que ela o fez voltar a ter esperança na humanidade.


Apesar deste tom quase de culpa, considero que este é um filme divertido. Acho particularmente engraçados os momentos de confronto entre Porco Rosso e Donald Curtis, um galã americano que se perde de amores facilmente, especialmente na sequência final da luta, em que estes partem para um autêntico jogo de murros, até as suas aparências ficarem quase ridículas com tantas nódoas negras. Mas momentos assim engraçados parecem existir apenas para contrastar com outras sequências mais sérias e, por isso, gostava de destacar o momento em que Marco está no seu avião e vê todos os seus companheiros a voarem ainda mais alto que ele, numa imagem simbólica da morte.

Admito que este está longe de ser um dos meus filmes favoritos do Studio Ghibli, mas agrada-me a sua mensagem, como uma tentativa de mostrar um testemunho pós-guerra. O protagonista é construído de maneira a mostrar-nos os impactos que a guerra pode ter num “homem” e torna-se interessante ver a sua reconciliação com a humanidade. Eu diria que é um filme especial e inesquecível, ainda que não seja um dos que mais gosto de rever.
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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