quarta-feira, 26 de maio de 2021

"Cruella" em análise

A Disney tem vindo a apostar cada vez mais nos seus vilões. Já conhecemos o passado de Maléfica e o seu lado bondoso oculto e também já passámos pelos filhos dos próprios vilões, com Os Descendentes (2015). Agora chega a vez de conhecermos melhor a famosa Cruella de Vil, a vilã de Os 101 Dálmatas (1961), que é, talvez, uma das vilãs menos acarinhadas dos estúdios… Ou assim era, até agora. Quando em 2019 começaram a surgir rumores de que este novo filme estava em produção, certamente não se pensou logo que iria abordar uma fase mais jovem da vilã. Na verdade, Cruella leva-nos até à sua infância, conseguindo, assim, explicar as suas motivações. Mas, tal como aconteceu em Maléfica (2014), nem tudo nesta personagem é tão mau quanto parece.


Começamos por ser apresentados à pequena Estella (inicialmente interpretada pela jovem Tipper Seifert-Cleveland e depois por Emma Stone), uma menina que nasceu com um pequeno “defeito” no cabelo, tendo metade preto e metade branco. A sua mãe quer que esta seja normal como as outras crianças, mas Estella revela desde cedo ter uma certa pitada de crueldade, que a ajuda a lidar com problemas como o bullying na escola. No entanto, este seu lado mais vingativo começa a aumentar à medida que vai crescendo e, anos mais tarde, e depois de muitos acidentes, a pequena Estella deixa de conseguir controlar a sua pouca bondade e dá lugar a Cruella, uma mulher com um talento inigualável para o design de moda, que busca uma oportunidade de brilhar.

Admito que não tenho visto os live-actions da Disney com grandes expectativas e que a maior parte achei relativamente fracos. Por este motivo, fui ver Cruella sem saber o que esperar. Pelo trailer, parecia-me ter algo de diferente e fora de tom. Também pelo trailer, parecia-me que Emma Stone ia fazer um bom trabalho – mas isso já seria de esperar. No entanto, não sei se pela falta de expectativas, este filme conseguiu agarrar-me do primeiro ao último minuto.


A história de Cruella leva-nos por um caminho repleto de obstáculos, mas onde continua a reinar a ambição da protagonista – de certo modo, a construção narrativa até lembra Joker (2019). Diga-se que os dálmatas, tão associados à “vilã”, até não têm muita presença neste filme, que é mais virado para o mundo da moda e para o quão caótico e competitivo este consegue ser. Estella é uma artista, com uma mente criativa, que está pronta a brilhar, mas é impedida pela Baronesa (Emma Thompson), uma das estilistas mais conceituados do seu tempo, mas que pouco tem de verdadeira autoria, servindo-se apenas dos seus “escravos” para conquistar o sucesso, sem ter mãos a medir no que toca a aniquilar quem se puser à sua frente. A nossa “vilã” de Os 101 Dálmatas acaba por tornar-se na personagem por quem torcemos numa luta entre rivais, que no seu background tem também segredos familiares.

Emma Stone dá um toque requintado a Cruella de Vil, com as suas expressões faciais sempre a transmitirem uma sensação de luxúria (mesmo na pobreza), de malvadez e confiança. Por sua vez, Emma Thompson entrega-nos uma antagonista que acaba por transmitir também essas mesmas características. O mais delicioso é ver os momentos de interação entre ambas e apreciar as maneiras distintas como cada uma das atrizes transmite as mesmas emoções. Para além disso, ambas conseguem dar uma certa ironia à maneira como reagem aos acontecimentos. Ou seja, temos duas protagonistas maravilhosamente interpretadas, ainda que este tipo de papéis não seja muito recorrente nas carreiras destas duas atrizes.


Cruella tem um bom elenco e uma história original que nos consegue cativar, mas parece-me que há algo que vai ser unânime nas várias críticas que vão surgir a este filme: a banda sonora é o melhor de tudo. Não sei, honestamente, como é que a Disney permitiu que várias das músicas fizessem realmente parte do corte final do filme, mas a verdade é que não soam nada (mas mesmo nada) como algo que pudesse estar numa produção da Disney. E isso é perfeito. É uma agradável surpresa quando estamos a ver um filme da Disney e de repente começam a soar grandes músicas que ouviríamos na M80 – algumas disfarçadas, com novos ritmos e cantadas de outras maneiras, mas facilmente reconhecíveis. Parece um desfile de grandes sucessos, passando por Connie Francis, Nancy Sinatra, pelos Queen, Supertramp, Bee Gees, The Doors, Nina Simone, The Clash, Led Zeppelin… É uma autêntica loucura! Uma aposta arriscada para a Disney, sim, mas – e perdoem-me a banalidade da palavra – é absolutamente brutal.

Cruella passou de um filme que eu até não tinha grande vontade de ver para um que eu quero ver novamente o mais rapidamente possível. Que viagem incrível que esta foi. Levou-me para outros tempos! E fez-me ficar ansiosa por cada uma das novas “aventuras” da protagonista, fosse nas suas vinganças ou nas suas aparições surpresa para fazer frente à Baronesa – e cada vez que isso aconteceu, rendi-me, porque cada nova invenção da personagem era mais insana que a anterior (e aqui não posso deixar de destacar também o trabalho de guarda-roupa, completamente ousado e pormenorizado!). Já há algum tempo que não ficava tão surpreendida com um filme da Disney, admito.

7/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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