terça-feira, 25 de maio de 2021

"Ninguém" em análise

Em 2014, o primeiro filme da franquia John Wick vinha estabelecer um género diferente de filmes de ação, que tem vindo a servir de inspiração a outros filmes com bastante frequência. Diga-se, de passagem, que as tramas são sempre semelhantes: temos uma personagem (de preferência com um passado ligado a uma profissão que requer alguma destreza com armas e lutas) que se torna o alvo de um grupo de assassinos, quase sempre depois de fazer algo com o intuito de ajudar outrem. É um género de ação que nos agarra, essencialmente pelas coreografias nas suas cenas de lutas dinâmicas e muitas vezes não tanto pelo argumento. Assim sendo, como é que estes filmes conseguem continuar a cativar o seu público, tendo quase sempre argumentos idênticos? Ninguém, realizado por Ilya Naishuller (o realizador do inovador Hardcore Henry), é só mais um filme de ação com vinganças e muitas lutas… Então, o que traz de especial?


Ninguém apresenta-nos um Hutch Mansell (interpretado por Bob Odenkirk), um homem que segue sempre a mesma rotina… Até que a sua casa é assaltada e a sua família fica em perigo. Nessa noite, Hutch não se defende e simplesmente deixa os assaltantes ir embora, para evitar violência. No entanto, o trauma causado na sua família leva este simples homem a querer vingar-se, despertando o seu passado de assassino profissional.

Neste caso, o acontecimento que leva à vingança do nosso protagonista é um assalto à sua casa. É o momento em que este vê a facilidade com que a sua família entra em perigo e a sua impotência perante esse ato leva-o a querer agir perante outras injustiças, como, por exemplo, ajudar uma jovem sozinha num autocarro que está a ser assediada por um grupo de homens. Sente-se um grande desenvolvimento no protagonista, uma vez que no início do filme vemos como é o seu dia-a-dia: um homem normal, que acorda, toma o pequeno-almoço, faz uma caminha, deita fora o lixo… À partida nada na sua vida familiar nos levaria a crer que este tem a capacidade de “derrubar” um enorme gangue de homens armados. Talvez o fator surpresa seja o que torna Ninguém diferente dos outros filmes do género, uma vez que o seu protagonista apresenta duas faces e ao vermos a primeira nunca conseguimos imaginar tudo o que este homem é capaz de fazer – e é caso para dizer que temos de ver para crer.

Bob Odenkirk parece uma escolha estranha para este papel, no entanto dá uma certa classe à sua personagem e o seu humor leva-nos a pensar que este poderia ser o resultado caso John Wick e Kevin McAllister tivessem um filho. Digamos que não é o típico herói da ação, porque de aparência é mesmo o mais normal possível – não estando sequer vestido a rigor. É alguém que passaria despercebido e, por isso, é sempre entusiasmante vê-lo em ação, até porque nunca sabemos o que esperar da personagem.


As personagens secundárias, assim como o respetivo elenco, também conseguem brilhar. Connie Nielsen interpreta aqui uma esposa minimamente “compreensiva”, apesar de estar num casamento que parece já não fazer muito sentido – ou, pelo menos, assim pensamos até haver uma certa reaproximação também acordada pelo trauma. Christopher Lloyd interpreta o pai do protagonista, um homem reformado a residir num lar, mas que ainda tem muitas cartadas na manga e muitas surpresas por revelar – e se gostarem da sua personagem, não percam a breve sequência a meio dos créditos.

Ninguém é um filme que podia ser banal, com uma história que não é novidade, mas traz algo de refrescante na sua realização, com sequências de luta inteligentes (e com uma impecável atenção aos pequenos detalhes) e cheias de adrenalina. Consegue agarrar-nos também pela apresentação do seu protagonista, focando-se nas suas emoções à medida que passa para as suas ações. Dá-nos um propósito coerente, o que nem sempre acontece, pois muitas vezes as personagens não são suficientemente desenvolvidas. Neste caso, a história é simples, mas elaborada o suficiente para querermos seguir as pisadas do protagonista e ficarmos motivados para conhecer as suas táticas de luta. É um filme que nos deixa empolgados e no final percebemos que tem algo de diferente e arriscado.

7/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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