quinta-feira, 6 de maio de 2021

"Tom & Jerry" em análise

Acredito que qualquer pessoa nascida antes do ano de 2000 viu pelo menos um episódio de Tom & Jerry. No meu caso, vi vários no Cartoon Network. Adorava ver as picardias entre estes dois “rivais”, cujas armadilhas para se apanharem um ao outro eram infinitas e sempre criativas e originais. Podia ter algumas sequências pouco corretas para os olhares de hoje, mas este cartoon era um dos mais divertidos que existia – e ainda atualmente continua a ter graça. Talvez esse seja o motivo pelo qual continua a ser “recriado”, primeiro com uma nova série de animação mais moderna e agora com um filme que leva esta dupla para o mundo real, onde estes interagem com personagens em carne e osso, qual Roger Rabbit em Quem Tramou Roger Rabbit? (1988). Mas será que Tom e Jerry conseguem continuar a ter piada assim num estilo mais diferente?


A trama começa por apresentar-nos os dois pequenos protagonistas, numa fase em que estão afastados: Tom sonha em ser um músico famoso (e claramente é fã de John Legend), Jerry simplesmente procura um novo lar na cidade de Nova Iorque. Ao mesmo tempo, somos apresentados a Kayla (Chloë Grace Moretz), uma jovem que acaba de perder o seu emprego e arranja uma estratégia para começar a trabalhar num dos mais populares hotéis da cidade, onde também vai ser organizado o casamento de um dos casais mais “influenciáveis” do momento. Inicialmente, o destino destas três personagens poderia ter pouco por onde se conectar, no entanto Jerry começa a morar no hotel… Um local onde, claro, não deveria haver ratos! Não tarda muito, Tom é contratado para encontrar Jerry. Pois sendo um gato, é suposto ser capaz de fazê-lo – mas nós já sabemos que para ele isso é um pouco complicado!

A conexão entre as personagens acaba por ser cómica, no entanto a determinado momento começa a sentir-se um pequeno problema: Chloë Grace Moretz consegue tornar-se no centro das atenções do filme demasiado rápido, ofuscando Tom e Jerry (aqueles que dão nome ao filme) com uma enorme facilidade. Aliás, os instantes iniciais de introdução às novas vidas de Tom e Jerry não conseguem ser tão interessantes como os momentos de Kayla, parecendo até tornar-se demasiado prolongados. Digamos que a dupla só começa realmente a ter graça quando começam a interagir um com o outro, trazendo o regresso das grandes artimanhas antigas.


Felizmente, o filme não se poupa a entregar a “violência” cómica que os desenhos animados nos mostravam. Há murros, ratoeiras, olhos negros, galos na cabeça… O clássico de Tom & Jerry! E o resultado do regresso de tudo isso é uma enorme nostalgia! Até porque temos também muitos dos sons que aumentam o humor (só faltou mesmo aquele típico efeito dos passarinhos a andar à volta da cabeça). De um certo modo, tudo isto contribui para manter a essência dos desenhos animados antigos, levando a uma alternância entre clássico e moderno. E este é, de facto, um filme que traz os nossos protagonistas para um mundo demasiado moderno, onde temas e conceitos atuais são abordados. À partida eu diria que estes não se iam adaptar, mas até se safam relativamente bem.

Infelizmente, à medida que via o filme senti que a banda sonora era trágica, parecendo completamente fora de tom com tudo o que estava a ver. As músicas simplesmente não combinam com o mundo de Tom & Jerry. O filme começa logo com um momento musical que serve de alerta vermelho neste sentido… Mas depois apenas tende a piorar a nível sonoro, com músicas de rap e hip hop que não ficam bem. Acho que ficaria muito melhor manter as músicas clássicas que todos associamos a esta dupla… Se bem que, se assim fosse, não ia tardar muito a termos também as populares “gargalhadas enlatadas” e isso talvez já fosse antiquado demais.


Este é um filme que vale mais pela sua nostalgia do que propriamente pela sua história, ainda que esta seja engraçada – simplesmente acaba por ser um pouco cliché, mas os atores lá vão conseguindo captar a nossa atenção e manter-nos interessados. É um filme razoável e um bom regresso de Tom e Jerry, ainda que me pareça que estes são muitas vezes ofuscados na história, pois as outras personagens conseguem ter um maior impacto na narrativa. No geral, entretém, pelo menos a camada que assistia ao cartoon… Relativamente aos mais novos, não sei se o famoso gato e rato são capazes de os cativar tão bem.

6/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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