domingo, 13 de junho de 2021

"Ao Ritmo de Washington Heights" em análise

Há um nome que nos últimos anos tem vindo a elevar-se no mundo dos musicais: Lin-Manuel Miranda, essencialmente conhecido por ser o criador de Hamilton, grande sucesso da Broadway, que recentemente também foi filmado. Lin-Manuel tem contribuído, para além disso, com a escrita de músicas para outros tantos projetos – por exemplo, Vaiana (2016) – e o seu talento enquanto compositor é notório, assim como o seu estilo muito próprio. Os fãs de Hamilton sabem que as músicas não são iguais ao comum dos musicais e que as suas rimas, humor e sonoridade conseguem distingui-las. No entanto, Lin-Manuel já antes de Hamilton tinha criado um musical, no início da sua carreira, de regresso à primeira década deste século: In the Heights brilhou na Broadway, mas, de um certo modo, parece ter caído no esquecimento, mas agora chegou novamente o seu tempo de brilhar, como uma adaptação para o grande ecrã, realizada por Jon M. Chu (que, por sua vez, também já tem alguma experiência na música, ao já ter realizado vários videoclips e filmes marcados por grandes coreografias).


Ao Ritmo de Washington Heights, no nome português, apresenta-nos Usnavi (interpretado por Anthony Ramos), um rapaz que tem o sonho de voltar para o país do coração para reconstruir o antigo bar do seu pai e que é o dono de uma pequena mercearia no bairro Washington Heights, essencialmente residido por emigrantes que têm sonhos por concretizar e que não têm grandes oportunidades naquele sítio. Ao Ritmo de Washington Heights é um filme sobre “sueñitos”, ambição e uma tentativa de quebrar as barreiras do preconceito, de que, neste caso, alguns dos protagonistas são alvo.

Este promete ser um dos filmes deste Verão e basta apenas alguns minutos para percebermos que consegue trazer-nos uma certa frescura, ainda que nos apresente uma realidade onde o calor é constantemente referido – e não apenas referido, mas também mostrado, com os atores quase sempre suados e, de facto, a reagirem como alguém que está com calor. Somos imediatamente transportados para um dia de Verão com altas temperaturas – como aqueles que há uns tempos levaram as lojas a ficar com o stock de ventoinhas esgotado – e depois temos momentos que nos dão vontade de mergulhar numa piscina, como é o caso de toda a coreografia da música “96,000”. É um filme de Verão também pelas suas cores, contrastes e alegria contagiante, mesmo tendo alguns momentos de tristeza, que certamente tocam nos espectadores.


In the Heights pode não representar todas as pessoas, mas tem uma paleta de personalidades, profissões, nacionalidades, etc, tão alargada que acaba por tentar dar-nos a todos algo com que nos identificar. Todas as personagens são muito diferentes, cada um tem os seus “sueñitos”, e o que o filme também acaba por mostrar é que devemos tentar encontrar-nos a nós mesmos e compreender quem somos, para que depois também possamos ir atrás dos nossos sonhos. Usnavi não é como Nina, que não é como Vanessa, que não é como Benny. Todos veem o mundo – o bairro – de modo distinto e o argumento enaltece essa capacidade de vermos com os nossos olhos e de confiarmos em nós. Nesse sentido traz-nos uma mensagem muito positiva de autoconhecimento e ambição.

As músicas apresentadas não são novas, mas é interessante ver como foram transformadas para o grande ecrã. As coreografias são estrondosas, nomeadamente as que ocorrem em espaços abertos, como a já referida “96,000”, mas também a canção de abertura que consegue fazer a apresentação do bairro e das suas personagens e depois surpreende com um clímax no meio da estrada, mesmo antes de aparecer o nome do filme. Aqui lembrei-me um pouco da abertura do La La Land (2017), com a sequência dos carros. De resto, gostava ainda de notar que no que toca a músicas e coreografias existem alguns pequenos easter eggs relacionados com Hamilton, que os fãs facilmente identificarão, como é o caso do toque do telemóvel do pai de Nina, a relembrar-nos a música de ameaça do Rei George II.


O elenco faz um excelente trabalho a dar vida a estas personagens, até porque alguns membros já estiveram também envolvidos em musicais, como é o caso de Anthony Ramos, que trabalhou com Lin-Manuel Miranda em Hamilton. Lin-Manuel acaba por fazer quase um cameo, ao ser o “piragua guy” que simplesmente vende granizados, mas, novamente, reserva um mimo para os fãs de Hamilton (que aconselho aguardarem até ao final dos créditos). Leslie Grace, Melissa Barrera e Corey Hawkins destacam-se pelos seus dotes vocais e pela química que têm com os seus pares românticos. Todos dão um carisma especial às suas personagens.

As minhas expectativas para Ao Ritmo de Washington Heights estavam elevadas e fico feliz por não ter saído da sala de cinema desiludida. Sinto que este é um filme que vi e vou querer rever várias vezes e facilmente entrou para o meu top 5 de musicais. É refrescante e conta uma história distinta, sobre aqueles que raramente são protagonistas. Consegue guardar algumas surpresas na manga até ao final e nunca para de surpreender com as suas revelações e coreografias brilhantemente encenadas.

8/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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