terça-feira, 22 de junho de 2021

"Luca" em análise

Num ano em que continua a ser difícil viajar para fora, é o novo filme da Pixar que nos leva até à Riviera Italiana, para acompanhar a grande aventura de Luca e Alberto, dois “monstros marinhos” que quando saem à superfície do mar se transformam em humanos e vão até Portorosso, uma aldeia perto do mar, onde as lendas sobre “monstros marinhos” são “o pão nosso de cada dia”. Enrico Casarosa já anteriormente nos tinha mostrado a magia de viver novas experiências com a sua curta-metragem La Luna (2011) e parece que desta vez quer continuar a levar os protagonistas da sua nova história para fora da zona de conforto, neste filme em que viver debaixo de água acaba por se transformar numa metáfora da vida e da importância de enfrentarmos os nossos medos.


Luca é um jovem “monstro marinho” que, qual Ariel de A Pequena Sereia (1989), sonha com o que está fora do mar e vive encantado com os humanos, que vai conhecendo através de vários objetos que, por vezes, caem no fundo do mar. Neste caso, porém, Luca não precisa de “se vender” para ganhar uma aparência humana: basta-lhe sair da água, que imediatamente fica transformado em humano. O problema é que Luca tem receio da superfície e só quando conhece Alberto, um outro “monstro-marinho” habituado a viver fora de água, é que consegue, finalmente, calar os seus medos (“Silenzio, Bruno!”).

Sair de água é como uma metáfora para o início da adolescência. Este é um filme coming of age, que acompanha os seus dois protagonistas a fazer novas descobertas, a enfrentar os seus medos e a afastar os seus receios. Luca e Alberto são como todos nós fomos no início da adolescência, cheios de incertezas e em busca de compreender o que não conhecemos. Há uma grande vontade de partir à descoberta, de conhecer o que está fora do nosso alcance e, para isso, é preciso, muitas vezes, sairmos da nossa zona de conforto e enfrentar obstáculos, como aqui é também representado pela corrida de Portorosso.

O filme fica marcado pelo seu tom alegre e as suas cores vibrantes. O contraste entre o azul-esverdeado do mar e as casas amareladas de Portorosso tornam-no num dos filmes mais veranis da Disney e Pixar e deixam-nos com uma vontade instantânea de viajar para aquele local italiano. Vontade essa que é também aumentada com as tradições italianas representadas, desde as lendas relacionadas com o mar aos pratos de comida tradicionais, como o Trenette al Pesto.


Luca é simples. Não é revolucionário para a Pixar – e, ao contrário do que poderia parecer a uma primeira vista, não se torna num Chama-me Pelo Teu Nome (2017) da animação, pois não chega a dar esse passo –, mas traz-nos um certo conforto e uma história que nos aquece o coração, especialmente nos momentos mais emotivos, como o final. É bonito ver a história da amizade destes dois amigos, mesmo quando depois conhecemos Giulia e um deles parece ficar um tanto fora do grupo – o que é claramente necessário no decorrer da narrativa e vai ao encontro do que já referi anteriormente, à necessidade de superar obstáculos. Desta vez, também não temos o vilão típico da Disney e da Pixar: Ercole é também ele apenas um obstáculo e a sua atitude arrogante, exagerada e narcisista contribui para aumentar o humor do filme. Neste caso, é mais um inimigo e não propriamente um vilão, o que se destaca um pouco pela diferença.

Infelizmente, este é um filme que não vamos ter a oportunidade de ver no grande ecrã, uma vez que estreia em exclusivo na plataforma Disney+. No entanto, não deixa de valer a pena ser visto, ainda que num formato menor, uma vez que nos traz mais uma experiência inesquecível da Disney e Pixar.

8/10
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Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

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