terça-feira, 1 de junho de 2021

"Um Lugar Silencioso 2" em análise

Um ano de espera, em que muito nas nossas vidas mudou. Um Lugar Silencioso 2 tinha data de estreia inicialmente marcada para Março de 2020, mas acabou por ser alterada, até porque os cinemas começaram a fechar precisamente na semana anterior à do dia marcado. O filme acabou por, naturalmente, ser adiado, assim como tantos outros que tinham lançamento previsto para o ano passado. Este demorou a chegar, mas desde a semana passada já tem estado no grande ecrã… E, como seria de esperar, volta (assim como o seu antecessor) a trazer-nos uma experiência cinematográfica inesquecível.


Só vi Um Lugar Silencioso (2018) uma vez, mas lembro-me como se o tivesse visto ontem. Lembro-me, inclusive, que na sala de cinema estava uma senhora sentada ao meu lado que dava um pequeno jumpscare a cada mudança de cena. Isto porque este foi um filme que soube brincar com o som e que até com as transições de cena conseguia causar um certo impacto, com recurso aos sons. Por exemplo, se numa sequência tínhamos silêncio absoluto, na transição até o som de água a correr poderia deixar-nos com um certo desconforto. Um Lugar Silencioso foi inovador na maneira como contou a sua história recorrendo, então, à sonoridade. Mas isto deve-se a vários motivos: primeiro, os monstros do filme são atraídos pelo barulho, pelo que é fundamental estar em silêncio, e, segundo, porque uma das nossas protagonistas é surda, e, por isso, de um certo modo também somos apresentados à sua realidade. Foi um filme que soube marcar pela diferença e que se tornou memorável por isso. Então, eu admito que estava curiosa para saber como ia ser a continuidade desta história e se a façanha se ia voltar a repetir, ou se esta sequela seria completamente diferente.

Ao que tudo indicava pelos dois trailers lançados, Um Lugar Silencioso 2 ia levar-nos ao início de tudo, parecendo acompanhar a chegada das criaturas estranhas à Terra e acompanhando a família Abbott desde o chamado “Dia 1”. Também nos trailers ficou explícita a chegada de uma nova personagem, interpretada por Cillian Murphy, que viria, então, juntar-se aos quatro sobreviventes do primeiro filme. Agora, algo que achei extraordinário foi ver todas as ideias que fui criando ao longo deste último ano a irem por água abaixo. Ou seja, criei teorias depois de ter visto o trailer e ao ver o filme entendi que houve uma enorme desconstrução dessas imagens, resultando em algo diferente do que eu pensava que ia ser, mas melhor.


Um Lugar Silencioso 2 traz uma busca por mais sobreviventes e é nesse sentido que vemos os nossos protagonistas a partir em busca de outras pessoas. O filme acaba por não se focar tanto no primeiro dia, mas parte desse princípio para nos mostrar como a vida pode mudar num instante (o que, aliás, nós também já percebemos na vida real, com a drástica chegada da pandemia) e que as pessoas não lidam bem com o caos. Esse primeiro dia serve, então, para exemplificar ainda melhor a mudança que ocorre na sociedade representada e acaba também por servir de introdução a novas personagens. No entanto, a trama não se fica por aí e parte depois para novas descobertas, acompanhando, essencialmente, a jovem Regan Abbott (Millicent Simmonds), que se torna no verdadeiro foco deste filme e que nos leva a enfrentar o medo nesta história.

O som continua a ser o elemento fundamental nesta sequela e, novamente, John Krasinski soube mostrar a sua importância – talvez até mais do que no primeiro filme, uma vez que a grande protagonista deste é Millicent. Se no primeiro descobrimos que os monstros têm uma grande sensibilidade ao barulho do aparelho auditivo, agora isso torna-se na principal arma de defesa e cada vez que é usada é absolutamente incrível, resultando em grandes momentos de tensão. O som continua a ser uma surpresa: nunca sabemos quando algum barulho vai atrair a atenção dos monstros. Senti que não temos transições de cena tão eficazes como no filme anterior (neste sentido), mas ainda assim, se também na sala de cinema todos estiverem em silêncio, é possível que ainda sintamos um pequeno susto de vez em quando.


Eu temia que esta sequela pudesse parecer desnecessária… Mas nada disso. Sinto agora que completa ainda mais a história e dá-nos uma certa esperança, depois da morte do pai Lee Abbott (o próprio Krasinski) no primeiro filme. Apenas há uma determinada sequência que neste filme me pareceu um pouco fora de tom (sem querer dar spoilers, digo apenas que está relacionada com uma certa criança), e apesar de entender o seu propósito não consigo deixar de achar que parece não condizer muito com o resto do filme – e, por algum motivo, lembrou-me a sequência dos nativos no King Kong (2005) de Peter Jackson.

O elenco volta a fazer um trabalho espantoso. Como já referi, desta vez é Millicent Simmonds que se destaca, uma vez que é a sua personagem que faz uma grande descoberta na história. No entanto, Emily Blunt e Noah Jupe também têm grandes momentos para brilhar – Noah até tem uma sequência de grande agonia. Cillian Murphy traz-nos aqui uma personagem bastante distinta do que tem feito ultimamente e prova também que foi uma excelente adição a este elenco já antes rico.


O resultado de Um Lugar Silencioso 2 é uma sequela competente, que consegue trazer uma boa continuação à história do primeiro filme, continuando a ser fiel ao modo como este apresentou as suas personagens. Continuamos a ter o som como principal aliado para pequenos sustos e para a criação de alguns momentos que nos conseguem deixar arrepiados. É uma sequela de sucesso e, certamente, agrará aos fãs do primeiro filme.

8/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

Sem comentários:

Enviar um comentário