terça-feira, 6 de julho de 2021

"Bem Bom" em análise

As Doce marcaram o panorama da Música nos anos 80, tanto em Portugal como a nível internacional ao tornarem-se numa das primeiras girls bands da Europa. Foram um projeto pioneiro e talvez até demasiado revolucionário para a altura, mas a verdade é que passados quarenta anos, as suas músicas continuam a fazer sucesso e a ser ouvidas por várias gerações. O novo filme de Patrícia Sequeira, Bem Bom, que chega ao grande ecrã esta quinta-feira (dia 8 de Julho), vem contar-nos precisamente a história da formação da banda, passando também pela vida pessoal das quatro mulheres que a formaram, incluindo os escândalos e sem esquecer a irreverência. Bem Bom consegue ser também um filme representativo de muitas mulheres, tornando-se ainda numa ode ao feminismo.


Lena Coelho (interpretada por Carolina Carvalho), Fátima Padinha (Bárbara Branco), Teresa Miguel (Lia Carvalho) e Laura Diogo (Ana Marta Ferreira) aceitaram fazer parte de um projeto revolucionário no mundo da música, no final da década de 70. Formaram as Doce, que cantavam “dance music portuguesa”, com o intuito de deixar todo um país a dançar. Portugal naquela altura era cinzento e não estava pronto para a excentricidade que estas quatro viriam a apresentar mais tarde, especialmente nas edições do Festival da Canção em que participaram, nas quais foram duramente criticadas pela sua presença considerada até “pornográfica” pelos críticos, pelas roupas ousadas que muitas vezes usavam. Esta é, então, a história da formação da banda, mas foca-se também em todos os obstáculos pelos quais tiveram de passar, nomeadamente estarem num país retrógrada, em que apenas os homens podiam ter sucesso. É, então, muito interessante ver a maneira como superaram a opressão e conseguiram brilhar, até chegar à carismática atuação na Eurovisão de 1982.

Primeiramente, gostaria de destacar o que salta logo à vista assim que o filme começa: o desempenho das quatro protagonistas, que apresentam aqui quatro personalidades muito distintas e brilham ao fazê-lo. O argumento permite mesmo que cada uma tenha o seu momento de destaque, uma vez que para além de acompanharmos os momentos de união da banda também assistimos a vários momentos individuais, da vida pessoal de cada uma.

O guarda-roupa consegue transportar-nos com uma grande facilidade para os anos 80. É fiel ao original e brilhantemente concebido. Aqui gostaria de destacar os figurinos da emblemática atuação da música “Ali Babá”, uma vez que as roupas também fazem parte da própria história, tendo grandes impactos no decorrer da narrativa e, novamente, no modo como as Doce eram vistas na altura.


Muitos filmes deste género, sobre músicos, não arriscam ter os seus atores a cantar e caem no “erro” de tê-los a fazer playback. Por exemplo, Bohemian Rhapsody em 2018. No entanto, é bom ver que os filmes portugueses têm arriscado. Primeiro, Variações (2019), com Sérgio Praia a mostrar os seus dotes vocais, e agora as quatro atrizes de Bem Bom, que ainda que não sejam cantoras de profissão conseguem também entregar momentos muito interessantes a cantar. Penso que este é mais um ponto a favor deste filme, uma vez que torna tudo mais natural.

Bem Bom conta com uma estética muito própria que nos consegue levar a viajar e faz um excelente trabalho a apresentar a banda às novas gerações ou a trazer memórias aos que se lembram de viver o momento alto das Doce. É uma experiência cinematográfica muito interessante, com momentos mais alegres e outros que enaltecem o preconceito que havia na altura, e que, infelizmente, continua a ser atual. Tem muita garra!

8/10
QUEM ESCREVEU ESTE ARTIGO?

Um grilo falante que lê livros, vê filmes e coleciona figuras e outras tralhas. Tenho um grande gosto pelos grandes clássicos e pelas animações. Na minha lista de longa-metragens favoritas estão E Tudo o Vento Levou (1939), Cinema Paradiso (1988), Forrest Gump (1994) e La La Land (2016).

Sem comentários:

Enviar um comentário